sábado, 6 de agosto de 2011

A IMPRENSA E OS SEUS LIMITES

Não coube a Murdoch inventar o jornalismo corrosivo dos tablóides britânicos. Para o bem e para o mal, a Inglaterra tem uma tradição de papéis impressos sem qualquer limite ético. Houve momentos em que a acidez da linguagem serviu a bom propósito político, como ocorreu com o North Star, durante o reinado de George III. O jornal era editado por John Wilkes, tido como o mais arrojado demagogo da Grã Bretanha. Wilkes, libertino e libertário, foi parlamentar, cassado duas vezes, prefeito de Londres e iconoclasta ousado. Chegou a escrever em seu jornal que o soberano era traído pela mulher, e publicou o nome do provável amante da rainha.

Wilkes é tido como o pai da liberdade de imprensa moderna. Foi um ídolo tão popular que, no século 19, um jovem ator, a quem o pai dera o nome de John Wilkes Booth, foi o assassino de Lincoln. No caso do fanático norte-americano há ainda uma curiosidade: seu pai, um bom ator shakespeareano, chamava-se Junius Brutus Booth – em homenagem ao fundador da República Romana.

A virulência dos jornais populares britânicos, que contrastam com os matutinos tradicionais, todos sérios e graves, é assim, anterior à chegada de Murdoch ao mercado londrino. É mesmo provável que o australiano tenha encontrado inspiração nos tablóides ingleses ao iniciar seu império jornalístico. O governo britânico, no entanto, está ameaçando a liberdade de imprensa, com medidas legais que podem ir além da proteção à privacidade dos cidadãos e se tornarem escudo dos políticos corruptos.

A liberdade de imprensa não pode significar a licença para a calúnia, a infâmia e a injúria. É preciso que o jornalista use seu texto com a consciência de que o que escreve pode significar a ruína moral de um inocente, se denúncia que faz é falsa. Um elogio a alguém dura alguns dias e, hoje, na velocidade das informações, talvez só algumas horas. Mas uma acusação caluniosa nunca é apagada de todo. Conhecemos histórias terríveis, de pessoas que carregaram nas costas o fardo de uma calúnia pela vida inteira. Como advertia Voltaire, da calúnia sempre sobra alguma coisa.

Não podemos reclamar tratamento privilegiado da lei. Os crimes de calúnia, difamação e injúria estão previstos no Código Penal. A ele devemos estar sujeitos todos, jornalistas ou não jornalistas. A liberdade de imprensa não é salvo conduto para a impunidade de ninguém. Por isso devemos dispensar privilégios, como jornalistas, mas exigir direitos, como cidadãos. Essa cautela diante da honra alheia não pode castrar os jornalistas, principalmente quando se trata do interesse público. Espantamo-nos com as revelações de atos criminosos cometidos por altos servidores do Estado, eleitos e não eleitos. Em alguns casos, a Justiça os pune; em outros a opinião pública os despreza e, infelizmente, como a memória do povo é curta, muitos retornam, lépidos e fagueiros, às posições das quais foram afastados. Quando a imprensa é amordaçada pela violência da lei e das ditaduras, a corrupção é bem maior e crimes brutais são cometidos, sem o conhecimento público, quando os culpados pertencem às nomenclaturas do poder.

No caso do News of World, e de outros jornais, britânicos ou não, não há jornalismo, mas sordidez. Na busca de leitores interessados no que há de pior na natureza humana, eles são capazes não só de exercer pérfida ficção, como de se associar a bandidos e a policiais, de ocultar informações importantes, e, com isso arriscar a vida de pessoas inocentes, como ocorreu com o jornal de Murdoch.

O australiano começou a encontrar limites para o seu poder, que parecia fadado a dominar o mundo. É importante que a indústria da informação e do entretenimento não esteja em poucas mãos e dominadas por um pensamento único e totalitário.

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OS BANCOS E A REVOLUÇÃO

A Europa se insurge contra as famosas e prepotentes “agências de classificação de riscos”, todas americanas, com a decisão da Moody’s (uma das três grandes) de rebaixar as dívidas de Portugal em quatro pontos, reduzindo-as a uma situação de “lixo”. Essas agências, se pensarmos bem, não têm razão de existir. Elas jamais foram capazes de prever, com prazo prudencial, os riscos dos créditos das grandes instituições financeiras e dos governos nacionais. Não previram as crises recentes do sistema financeiro internacional, nem foram capazes de descobrir as falcatruas das grandes instituições empresariais e financeiras, como as da Enron, dos bancos de investimentos, como o Lehman Brothers e de instituições de larápios, como a de Madoff. Elas só denunciam os erros, depois de consumadas as crises. De nada servem para alertar os investidores e as autoridades governamentais a tempo de que tomem providências acauteladoras. Mas os governos são também responsáveis, ao lhes dar crédito, e também por não fiscalizar o comportamento das instituições financeiras, nem examinar a lisura de sua contabilidade.

A questão retorna ao mais inquietante confronto da civilização ocidental - qual deve ser a diretriz da vida em comum: a economia ou a política? O dinheiro pode controlar e dirigir a ação política, ou a política tem que dirigir e controlar as finanças? O sistema financeiro, no interior dos Estados e no plano internacional, é a mais poderosa das instituições corporativistas. Ninguém é mais solidário com um banqueiro do que outro banqueiro, embora disputem entre eles, e sem escrúpulos, os grandes negócios. Nos últimos trinta anos, o sistema financeiro internacional vem cavalgando os estados nacionais e, assim, governando, sem legitimidade, os povos do mundo. Retornaram, sem qualquer pudor, ao saqueio neocolonialista dos recursos naturais dos povos mais débeis, também mediante as guerras de conquista. Trata-se de nova forma de acumulação selvagem de capital e de destruição do “estado de bem estar social”, cujo embrião podemos encontrar ainda na Inglaterra vitoriana, com as preocupações do conservador Disraeli.

A política, sob a corrupção do dinheiro, e a violência repressiva, desfigura-se e se desnatura, mas costuma reagir, ao recuperar-se em processos revolucionários conhecidos na História. De qualquer forma, para que ocorram as revoluções, é necessário que intervenha a razão. Os sinais dessa reação saneadora podem ser vistos nos atuais movimentos de massa em vários países do mundo, muçulmanos ou cristãos, xintoístas ou animistas. O que lhes estava faltando é a teoria revolucionária, uma tarefa dos intelectuais. Há indícios de que já começam a surgir núcleos de discussão que podem suprir essa dificuldade. Com a orientação da inteligência, os movimentos serão capazes de vencer a repressão.

A crise na Europa coloca também em discussão o problema da autonomia dos estados e da soberania compartilhada dentro da Europa continental, da qual a moeda única é a marca maior. Há poucos dias, o Prêmio Nobel de Economia (1998) o indiano e professor em Harvard, Amartya Sen, publicou instigante artigo sobre o tema. Ele fala da ameaça à democracia que representa a insidiosa prevalência dos interesses financeiros sobre a ação política no continente, e dá como exemplo a excessiva importância atribuída às agências de classificação, que determinam a ação dos bancos centrais e dos governos, a serviço das grandes instituições financeiras internacionais.

Sen afirma que a liberdade dessas agências terá que ser enquadrada pelo poder da legitimidade política, isto é, pelos governos eleitos, mas, por enquanto, esse enquadramento não existe. As agências, remuneradas pelo “imperativo financeiro”, só a ele obedecem.

Ao discutir o problema do euro, que ele considera danoso à necessária soberania dos estados e à sua autonomia de ação econômica, lembrou a proposta da federação européia, surgida no movimento socialista italiano, em 1941, chefiado pelos jovens Altiero Spinelli, Eugenio Colorni e Ernesto Rossi.

É importante voltar a esses pioneiros da idéia de uma Europa Unida, os signatários do Manifesto Ventontene, da Itália, que se encontrava, então sob o domínio do fascismo. O documento, que circulou clandestinamente, fazia reflexão profunda sobre a situação européia de então, sob o avanço do poder dos nazistas. “O homem civilizado – diz o Manifesto – é um produto complicado e frágil. Os mais grandiosos frutos da civilização se devem à férrea disciplina que ela impõe ao ânimo selvagem dos homens. Mas quando os homens se encontram diante de problemas cuja solução é de importância vital e não são capazes de encontrá-la - em razão da resistência oposta e da ausência de instrumentos aptos para resolvê-los de forma pacífica - aquela disciplina pode romper-se e deixar emergirem as forças primitivas, que tendem a resolver a dificuldade com a violenta imposição de sua vontade”. A isso chamamos explosão revolucionária das massas.

Sen – como outros eminentes economistas de hoje – parte da idéia que os déficits públicos, quando financiam o desenvolvimento, tendem a ser absorvidos pelo aumento rápido da receita tributária. Vale a pena transcrever um trecho de seu artigo: O laço que une o crescimento e as receitas públicas é amplamente observado em numerosos países, da China ao Brasil, passando pelos Estados Unidos e a Índia. E aí ainda há lições a tirar da História. Numerosos países acumularam ao fim da segunda guerra mundial pesadas e preocupantes dívidas públicas, mas um crescimento econômico sustentado permitiu aliviar rapidamente o fardo. Da mesma forma, os déficits colossais que Clinton encontrou, ao assumir o poder, há quase vinte anos, reduziram-se sob sua presidência, em grande parte pelo efeito da rapidez do crescimento”.

Em suma: não é o arrocho salarial, ou a “flexibilidade” das leis do trabalho, nem o desemprego, que promovem a queda dos déficits, mas, sim, o contrário. O que importa é o crescimento da economia, com melhor distribuição de renda e redução das desigualdades. Nisso, a lição brasileira é eloqüente.


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A REBELIÃO DOS HOMENS

Imagine o leitor que em fevereiro de 1848 já houvesse a rede mundial de computadores. Vamos supor que, em lugar de imprimir os primeiros e poucos exemplares do Manifesto Comunista, Marx e Engels tivessem usado a internet, de forma a que todos os trabalhadores europeus e norte-americanos pudessem ler o texto. Qual teria sido o desenvolvimento do processo? Como sabemos, o ano de 1848 foi de rebeliões operárias na Europa, reprimidas com toda a violência.

O capitalismo selvagem de então, um dos filhos bastardos da Revolução Francesa, sentiu-se animado pela derrota dos trabalhadores. Na França a burguesia tomou conta do poder e, derrotada a monarquia, assumiu-o sem disfarces e sem intermediários, em um período que os historiadores denominam de “A República dos homens de negócios”. Os trabalhadores e intelectuais tentaram, mais tarde, em 1871, logo depois de a França ser derrotada pelos alemães, criar um governo autônomo e igualitário em Paris. Com a ajuda dos invasores, o Exército de Thiers executou 20.000 parisienses nas ruas.

As manifestações populares dos países árabes, que os governos e a imprensa dos Estados Unidos e da Europa saudaram como o fim dos tiranos e o início da democratização do mundo islâmico, entram em nova etapa, ao atingir os países ricos. Os analistas apressados são conduzidos a rever suas conclusões. O mal-estar que levou os povos às ruas não se limita ao norte da África: é fenômeno mundial. Uma das contradições do capitalismo, principalmente nessa nova etapa, a do imperialismo desembuçado, no qual os governos nacionais não passam de meros servidores dos donos do dinheiro, é a de sua incapacidade em estabelecer limites. Hoje, nos Estados Unidos – que foram, em um tempo, o espaço para a realização de milhões de pessoas mediante o trabalho – a diferença entre os ricos e os pobres é maior do que durante toda a sua História, incluído o tempo da escravidão. Um por cento da população norte-americana detém 40% de toda a riqueza nacional. A mesma situação se repete em quase todos os paises nórdicos.

Quando redigíamos este texto, milhares de pessoas se encontravam acampadas no centro de Madri, em continuidade ao movimento Democracia Real, Já, que se iniciou em 15 de maio, com protestos em todas as grandes cidades espanholas. A Espanha hoje está dominada pelos grandes banqueiros e companhias multinacionais, que não só exploram o trabalho nacional, como vivem de explorar os paises latino-americanos. Bancos como o Santander – cujos resultados mais expressivos ele os obtém no Brasil – dividem com os dois partidos que se revezam no poder (os socialistas e os conservadores) o resultado do assalto à economia do país. É contra esse sistema odioso que os espanhóis foram às ruas, e nas ruas continuam.

Não são apenas os jovens desempregados que se indignam. São principalmente as mulheres e homens maduros, os que estimulam o movimento. Eles sentem que seus filhos e netos estarão condenados a um futuro a cada dia mais tenebroso e mais violento, se os cidadãos não reagirem imediatamente. Os espanhóis estão promovendo a articulação internacional de movimentos semelhantes, que ocorrem em outros países, como a Islândia, a França, a Inglaterra e mesmo os Estados Unidos. Se o sistema financeiro se articulou, com o Consenso de Washington e os encontros periódicos entre os homens mais ricos do planeta, a fim de dominar e explorar globalmente os povos, é preciso que os cidadãos do mundo inteiro reajam.

Marx queria a união de todos os proletários do mundo. O movimento de hoje é mais amplo e seu lema poderia ser: Seres humanos do mundo inteiro, uni-vos.

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AS GUERRAS INÚTEIS

Os Estados Unidos não aprenderam com as vicissitudes que o maior cuidado com os planos bélicos deve ser dedicado à retirada. Isso é tão importante no nível tático, nas batalhas e combates isolados, quanto na estratégia da guerra como um todo. O mesmo vale para os atos cotidianos da política, porque deve ser também a conduta da vida comum. Quando temos um projeto, podemos prever as suas dificuldades, e estabelecer a atitude a tomar, se ele não der certo.

A grande nação do norte é geograficamente inexpugnável, situada entre os dois maiores oceanos, com um forte aliado ao norte, o Canadá, e um débil e constrangido vizinho, o México, ao sul, mas isso não a torna invencível nos conflitos internacionais. O mito de seu poderio militar se funda na superioridade tecnológica, mas as armas, por mais potentes sejam, são um complemento do combatente. Mais poderosa do que os artefatos é a vontade humana. Foi essa vontade, transformada em bravura, que derrotou os norte-americanos no Vietnã e os soviéticos no Afeganistão. Na guerra iniciada em 1979, o Talibã e seu aliado, Osama bin Laden, contaram com todos os recursos norte-americanos – mas essa ajuda não foi decisiva para a derrota de Moscou. O que a decidiu foi a disposição dos afegãos para o combate, em defesa de suas terras áridas, feitas, em sua maior parte, de desertos e depressões, de altas montanhas rochosas, com poucas áreas férteis, algumas delas cultivadas de papoula, a matéria prima do ópio e de seu derivado, a heroína.

Os Estados Unidos sabem que não podem continuar no Afeganistão. Não fossem as dificuldades políticas internas, diante do poder de fato que domina o país - o famoso complexo industrial-militar, denunciado por Eisenhower há 50 anos – consolidado na escancarada aliança entre o Pentágono e Wall Street, e Obama determinaria o retorno imediato das tropas ao lar.

Mais uma vez, o Pentágono e o Departamento de Estado não foram capazes de planejar a retirada no momento certo, mediante a combinação dos atos militares aos entendimentos diplomáticos. O descompasso entre as duas instituições é antigo, nos Estados Unidos, e corresponde a uma usurpação de deveres: os diplomatas querem conduzir a guerra, e os militares pretendem impor as diretrizes políticas. Esse conflito sempre foi arbitrado pelos presidentes, quando os chefes de estado dispunham de real autoridade sobre a nação. Nesse momento, acuado pelo desemprego, pelas falcatruas criminosas dos banqueiros e pela rearticulação da extrema direita, Obama começa a perder todos os seus cabedais políticos. Está, a cada dia mais, parecido a Nixon, em seu declínio melancólico quando, obrigado a sair do Vietnã, e na ânsia da reeleição, teve que apelar para a operação frustrada – e denunciada pela imprensa – de Watergate.

Ao examinar os problemas da retirada depois de uma batalha perdida, Von Clausewitz, em seu clássico estudo sobre a guerra - Vom Kriege -, diz que a derrota em uma batalha (e a idéia pode ser ampliada à guerra completa) destrói mais a energia moral dos exércitos do que a sua energia física. E conclui o pensamento, ao afirmar que, a menos que as circunstâncias se invertam, uma segunda batalha terminará com a derrota completa, se não acabar na destruição definitiva do vencido.

O Secretário da Defesa, chefe nominal do Pentágono, Robert Gates, confirmou que já se iniciaram as conversações preliminares com o Talibã, e as justificou, dizendo que as guerras sempre terminam nos entendimentos políticos. Há dois reparos que podemos fazer a Gates. O primeiro é o de que as guerras seriam evitadas com as conversações políticas – e o governo Bush se recusou a conversar, não só com o governo dos talibãs, como se negou aos esforços de paz de Saddam Hussein, obstinado em invadir o Iraque, depois de dez anos de bombardeios de desgaste sobre o território. Para que tantos gastos militares, tanto sangue derramado, tantos jovens norte-americanos mortos, se, depois de tudo, a solução será política – repetindo-se o que ocorreu no Sudeste Asiático? O outro reparo é o de que, por mais volteios retóricos faça, ao procurar entendimentos com os talibãs, os Estados Unidos confessam que perderam a guerra. Uma guerra só é ganha quando obrigamos o inimigo a aceitar a nossa vontade. Isso não ocorreu no Iraque, onde a resistência continua firme, nem no Afeganistão, onde os talibãs, a cada dia mais, obtêm apoio maior da população e maiores resultados militares.

Os Estados Unidos perderam outra guerra, e continuarão perdendo as que virão, até que o seu povo expulse os banqueiros e os generais do poder, que exercem mediante seus prepostos políticos.

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DUAS ESPÉCIES HUMANAS

Há quem decrete o fim da classe operária, com a exacerbada corrida tecnológica, que vem substituindo os braços humanos na produção industrial. A expressão pode até se desusar, e de certa forma já está sendo abandonada. Mas o problema é de outra natureza. O mundo não se divide entre os trabalhadores manuais e os outros, mas sim entre os assalariados e os donos do capital. Isso em uma visão ligeira do problema, porque todo trabalho humano é, ao mesmo tempo, manual e intelectual. Quem opera uma máquina, ainda que o faça mediante um ordenador eletrônico, usa ao mesmo tempo as mãos e o cérebro.

Mais ainda: toda a evolução do homem se deve a essa óbvia associação entre o pensamento e a ação. Por isso mesmo, o filósofo Agostinho da Silva, um dos mais inquietantes pensadores do século 20, diz que o homem não nasceu para trabalhar, e sim para criar. Os marxistas definem essa diferença, ao identificar, no artífice do passado, o criador, uma vez que ele dominava todo o processo de fabricação, e uma peça não era exatamente igual à outra. Na produção industrial moderna, em que cada trabalhador executa – durante a jornada, meses, e quase sempre por muitos anos, quando não toda a vida ativa – a mesma tarefa, fazendo peças separadas, que serão montadas depois, só há realmente trabalho.

Trabalho vem do latim tripalium, que era um instrumento de suplício no mundo romano. O trabalho sempre se associou ao sacrifício, e não ao prazer. A criação, ao contrário, tem uma expressão lúdica. O marceneiro que faz um armário, partindo de sua própria imaginação e desenho, é um criador. Até mesmo o lenhador, que escolhe na floresta a árvore a abater, é de certa forma um criador. Mas o operário que lixa 500 peças por dia ou aperta parafusos (hoje os robôs o substituem) na linha de montagem, como no belíssimo filme de Chaplin, Tempos Modernos, é um homem submetido ao suplício permanente. Na visão magistral de Marx, o trabalhador de hoje é o “complemento vivo de um organismo morto”.

Os operadores que usam o teclado e “interagem” com a tela não têm apenas seu movimento manual determinado pela máquina, mas também sua mente. Como os bancários, que lidam com milhões alheios durante o dia, eles não conseguem dormir em paz: uns sonham com cifras, outros com bytes. A grande tragédia dos trabalhadores modernos, submetidos às exigências da tecnologia, é se sentirem peças isoladas, exatamente iguais às outras. Não tendo de intervir com sua inteligência, e estando submetidos às tensões de cada minuto, são facilmente substituídos pelos robôs, cuja programação é obedecida sem que as emoções os perturbem.

Um escritor paulista – e conhecido empresário –, Nelson Palma Travassos, achava que as máquinas seriam a redenção do homem moderno, e substituiriam os escravos da Antiguidade, libertando-o para o exercício livre da inteligência – desde que esses robôs fossem de propriedade do Estado, que distribuiria os bens produzidos com equidade a toda a população. A tecnologia não está a serviço dos homens. Está a serviço dos ricos, que a usam, sobretudo na transferência instantânea de capitais, roubando dos depositantes e dos acionistas, enfim, de todos, porque o Estado, ou seja, o povo, arca com o prejuízo. Só há duas classes sociais, a dos ricos e a dos pobres.

Durante muito tempo, ricos eram os que detinham os meios físicos de produção, isto é, as terras, as máquinas, enfim, o capital produtivo. O liberalismo novo, com a globalização da economia, mudou o eixo da razão. Hoje, são os bancos que dominam todo o processo. E os bancos não são administrados – salvo exceções – pelos acionistas, mas sim por executivos tais como os que vimos nos escândalos recentes de Wall Street.

Observadores atentos, como o financista Paul B. Farrell, comentarista do Wall Street Journal, mostram que a desigualdade social nos Estados Unidos é hoje maior do que em 1929, quando se iniciou a Grande Depressão, e que, se os ricos não pagarem pesados impostos que permitam melhor distribuição da renda, os pobres, não só ali, mas no mundo inteiro, se sublevarão. É uma questão de vida e morte.

O FUNDAMENTO DA LIBERDADE

O STF autorizou as manifestações de sábado próximo, em favor da legalização do uso da maconha. Manifestações em defesa do homossexualismo já se tornaram banais, no Brasil e no resto do mundo. Esses movimentos chocam muitas pessoas, sobretudo as mais velhas, que viveram um mundo muito antigo, o que existia até a primeira metade do século passado. Há menos de cem anos, o homossexualismo era punido a chibatadas em vários países do Ocidente, mas também a chibatadas eram punidos os que se levantavam contra as injustiças, como ocorreu, em 1910, nos navios ancorados no Rio. O episódio levou à desesperada revolta dos aviltados, o que fez de um marinheiro negro, João Cândido, o mais poderoso almirante da historia do Brasil, durante algumas horas.

A visão radical da liberdade de ser não pode admitir quaisquer constrangimentos ao indivíduo, naquelas decisões que só a ele interessam, desde que ele esteja consciente de sua escolha. Drogar-se é uma opção pessoal – e não só com maconha. Combater o tráfico de drogas é dever do governo. A razão recomenda regulamentar a produção e o comércio das drogas, sem, no entanto, deixar de combater o seu uso, com o emprego de outros instrumentos, que não os da repressão policial. O consumo de fumo caiu substancialmente no Brasil, depois de algumas medidas dissuasórias, entre elas a interdição da propaganda que o incitava, e a ação educativa do governo que o combatia. Há, sem embargo, que encontrar soluções engenhosas, no combate ao consumo de drogas que dizimam as crianças pobres, como o crack e o oxi. É possível encontrar sucedâneos que provoquem as mesmas sensações, sem os efeitos que destroem o organismo.

O mais importante da decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal é a associação, reconhecida pelos juizes, da liberdade de consumir maconha – que muitos consideram menos danosa à saúde que o tabaco – à liberdade de expressão. Nos últimos anos, sob o argumento da defesa das minorias, ponderáveis grupos da sociedade ficaram constrangidos de expressar a sua própria opinião. Sem julgar o que pode ser considerado certo ou errado, a liberdade de manifestação do pensamento é a de permitir a difusão de quaisquer idéias, desde que não incitem ao crime. Deve ser livre a manifestação tanto contra o uso de drogas, quanto em seu favor. Os heterossexuais, se se sentirem a isso compelidos, também devem ser autorizados a defender o que consideram ser o relacionamento íntimo normal entre as duas identidades humanas. Mas é conveniente também suspeitar que estimular determinadas manifestações populares significa evitar outras. A ordem de domínio é sagaz: substitui as revoluções políticas pelas revoluções dos costumes. É também de sua solércia construir caminhos de diversão – de fuga, em suma -, ao promover a alienação política, mediante o afrouxamento moral e o estímulo às crendices. Até mesmo a literatura que, a pretexto da auto-ajuda, açula o egoísmo, serve a esse propósito, ao acenar que a salvação é individual, e não coletiva. A ação política é substituída pela passividade da ascese.

Não é somente a religião – em leitura apressada de Marx – que constitui o ópio do povo. Ao aceitar essa idéia que, convenhamos, não foi exatamente o pensamento do filósofo, teríamos que aceitar a sua antítese: a de que as drogas são – ao nos afastar da dura realidade do sofrimento e da frustração – a religião dos atormentados.

É bom que as ruas das grandes cidades brasileiras se encham dos que desejam, ao mesmo tempo, o direito de usar maconha e o da livre manifestação de pensamento, de qualquer pensamento. Mas seria conveniente que as ruas se povoassem também dos que não podem admitir o retorno das privatizações, entre elas as dos aeroportos, que poderão ser administrados por estrangeiros, e daqueles que não concordam com o poder que as agências reguladoras de atividades estratégicas têm sobre o Estado e a sociedade nacional. Não seria mal, tampouco, que todos os que assim quisessem, fossem às ruas, a fim de exigir a punição dos peculatários e de alguns juízes que, sem constrangimento, votam contra a lógica do direito e a razão da ética. Felizmente parece que podemos contar com a maioria do STF, mas o Supremo só pode manifestar-se em certos casos, quando estão em jogo os direitos constitucionais – entre eles o da liberdade – e os interessados conseguem chegar à sua porta.

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sábado, 2 de julho de 2011

ALEXANDRE EM BRONZE

À beira de uma guerra civil, provocada pela pressão dos banqueiros europeus, mediante seus governos, a Grécia se agarra a um mito perdido, o de Alexandre, o Grande. Em nome do herói, litiga contra a ex-República da Macedônia, que pertencia à Iugoslávia e é hoje estado sob precária independência nos Bálcãs instáveis. Os gregos argumentam que o nome de Macedônia está ligado à Grécia Antiga, porque fazia parte do complexo geográfico habitado pelos povos gregos. Os macedônios eram gregos, embora não atenienses, como gregos eram também os espartanos. A Guerra do Peloponeso foi, assim, um conflito interno do ponto de vista nacional, embora fosse entre as cidades-estado do arquipélago. No segundo momento Filipe da Macedônia unificou a Grécia sob seu domínio e o legou a Alexandre, construtor de um dos maiores impérios da História.

O problema é que os gregos e os macedônios de hoje não podem reivindicar o heroísmo de Alexandre como legado nacional. Atenienses e espartanos, beócios e cretenses, tebanos e macedônios daqueles tempos fortes já não existem. Depois da vitória de Alexandre, o sistema ateniense se dissolveu no império do macedônio que, por sua vez, se repartiu em volta do Mediterrâneo, antes de perecer sob a força das legiões romanas. A Grécia deixou de existir como uma identidade política desde aquele tempo fascinante. Venezianos e romanos e, mais tarde, os turcos, se fizeram senhores do arquipélago. A cultura grega só sobreviveu, porque emigrou para Roma e se tornou, com a expansão do domínio republicano e, em seguida, imperial, o alicerce da civilização a que chamamos ocidental.

Alexandre foi um relâmpago na história, e um grego autêntico, assim como fora seu pai, Filipe. A lenda lhe atribui paternidade divina. Aos grandes homens, de grandeza titânica, atribuía-se essa origem, porque superavam, na força e na inteligência, a fragilidade dos homens comuns. Um relâmpago teria atingido o ventre de Olímpia, mulher de Filipe e, nesse instante de estrondo e fogo, o futuro guerreiro foi concebido.

Em apenas 13 anos, Alexandre conquistou meio mundo conhecido. Mas, como sabemos, a sua glória não estava apenas nos combates e na inteligência militar. Ele foi o primeiro explorador, no sentido clássico, da História, ao conduzir, em seu séqüito, cientistas e pensadores. Nesse sentido, ele levou o Mediterrâneo ao Ganges, e reabasteceu o Mediterrâneo da sabedoria oriental.

Sua cidadania grega estava, acima de tudo, nas lições recebidas de Aristóteles, seu preceptor durante os três anos que o separam das primeiras ações militares – dos 13 aos 16 anos.

Os novos macedônios, ex-iugoslavos estão levantando, em sua capital, Skopje, uma estátua de Alexandre,em bronze, com 22 metros de altura (o Cristo Redentor, do Rio, tem 38 metros). As peças, fundidas na Itália, estão sendo montadas. Podemos considerar que a nova Macedônia, sendo um país independente, tem o direito de erigir qualquer estátua, de Alexandre ou de César, de Tamerlã ou Átila, se assim decidir o seu povo. O problema é que o país, com apenas dois milhões de habitantes, é um dos mais miseráveis da Europa. Segundo informa El Pais, o salário médio é inferior a 300 euros ao mês. Só o monumento a Alexandre (a estátua e alegorias menores também em bronze) custará 10 milhões de euros.

As duas repúblicas não têm razões para o orgulho em seu presente. A Grécia enfrenta uma das situações mais terríveis de sua história moderna, depois que se livrou do jugo turco, e teve que se valer de uma falsa monarquia, ao valer-se de príncipes europeus – e exportar alguns de seus descendentes a outros países, como o consorte da Rainha da Inglaterra, Philippos Schleswig-Holstein Soendenburg-Glucksburg, da Grécia e Dinamarca. Ou a princesa Sofia da Grécia, também descendente de príncipes dinamarqueses e holandeses, que se tornou, em 1975, por ser mulher de Juan Carlos, Rainha da Espanha.

É natural que a Grécia de Papandrou, acossada pelas exigências do neoliberalismo, que dificilmente cumprirá, sem que haja repressões sangrentas contra o povo, desempregado e aflito, reclame de um glorioso passado que os velhos e autênticos gregos viveram em seu território. É natural que exijam, para o seu patrimônio, a figura titânica de Alexandre e o nome da região grega que os habitantes da pequena região balcânica se atribuíram. Sem passado, os novos macedônios procuram arranjar um, e fustigados pela miséria, encomendaram em Florença um herói em bronze, na esperança de que esse estrangeiro no tempo possa dar-lhes um futuro.

Enquanto isso, os grandes do mundo, fazendo seus cálculos, sorriem. Os banqueiros, como se sabe, não choram.