sexta-feira, 6 de maio de 2011

JADER E O JORNALISMO

A morte, há dias, de Jáder de Oliveira me leva a meditar sobre a brevidade da vida, o valor da amizade e a natureza do ofício de jornalista. O jornalista é um homem comum, que consegue ver o mundo e escrever sobre seu dia-a-dia. Não é escritor, na identificação que a sociedade dá ao homem de letras. Não é especialista em nada; flutua sobre os assuntos, como uma libélula recenseia as lagunas de águas estanhadas, com sua vegetação estranha. Sua notoriedade é efêmera. Mas, de alguma forma, os bons jornalistas têm a sua atuação gravada no tempo, e queiram ou não queiram, ao influir sobre o cotidiano, influem na História.

Jáder e eu fomos, no início dos anos 50 – mais precisamente em 1952 – os dois mais jovens integrantes da redação do “Diário de Minas”, que se editava em Belo Horizonte. O jornal pertencia a Otacílio Negrão de Lima, irmão de Francisco Negrão de Lima, embaixador, ministro da Justiça de Getúlio e futuro governador da Guanabara. Era um matutino ligado ao PSD, logo, a Juscelino. Jáder era um adolescente de 17 anos, e eu mal passara dos 19. Como éramos os mais jovens, passamos a ser, necessariamente, os mais próximos. Recordo-me que a sua juventude era tão ostensiva, que José Calazans Filho (que tinha 34 anos apenas, mas, para nós, era um velho) costumava aborrecê-lo, perguntando sempre a sua idade. Jáder, respeitosamente, respondia corretamente e Calazans resmungava um forte palavrão, depois do intróito canalha: “vai ser novo assim...”

Uma semana antes de sua morte, conversamos longamente pelo telefone. Ele, com a dignidade de sempre, e bom humor, relembrava os nossos tempos jovens, falava dos companheiros que já se haviam ido, como se ainda estivessem vivos.

Jáder era repórter esportivo então. Sempre escreveu com elegância e correção. Ao mesmo tempo se dedicava à música popular brasileira e ao rádio. Bem dotado para as línguas estrangeiras, cantava baixinho as canções norte-americanas de Jerome Kern e Oscar Hammerstein, e, mediante elas, aprendeu rapidamente o inglês. Em Londres, ao mesmo tempo em que trabalhava na BBC, foi correspondente da imprensa brasileira, trabalhando em Veja, em sua primeira fase, e em outros jornais. Sempre que podíamos, nos víamos. Visitou-me em Bonn, onde morei, e estive muitas vezes com ele e Nely, a dedicada esposa que ele buscou na Argentina, em Londres. Jáder vinha ao Brasil pelo menos uma vez por ano. Seus dois maiores amigos, bem mais velhos, aos quais ele tinha um afeto de filho – ele que ficara órfão de pai muito cedo – eram os advogados José Cabral e José Ramos Filho. Com ambos – atleticanos lendários - conversava sempre sobre futebol. E com José Ramos, a música popular brasileira era o tema de todos os encontros. Passavam horas lembrando os grandes compositores do passado, cantarolando seus sucessos. Ele sabia, de cor, todas as composições de Noel Rosa, e conhecia as circunstâncias da criação de cada uma delas.

Na última vez que visitou Belo Horizonte, já não os encontrou: Cabral morreu aos 98 anos e José Ramos era pouco mais moço quando se foi.

Jáder já estava enfermo e tinha a consciência de que dificilmente venceria a doença. Mas nada derrubava o seu bom humor. “Fiz tudo o que podia fazer”, me disse em nossa última conversa. “Agora, é esperar”. E, em seguida, lembrou um episódio de nossa mocidade, fustigando certo colega pedante que tivemos, e seu riso intenso foi cortado pela tosse. “O canalha está se vingando”, voltou a rir. O médico interrompeu a nossa conversa, explicando-me que ele estava cansado.

Quando penso em alguns companheiros de jornal, e não foram poucos, construídos com a dignidade, a modéstia e a competência de Jáder de Oliveira, sinto que vale a pena o nosso ofício.

LIL ABNER E O SUPER-HOMEM

Até mesmo por uma estratégia da natureza humana, evitamos pensar na decadência e na morte. A vida, apesar de todas as especulações transcendentais, ocorre aqui e agora, no mundo que conhecemos. E esse mundo, propriedade ideal de cada um de nós, enquanto vivemos, é a única realidade de que dispomos. Por mais pobres que sejamos, o normal é que busquemos viver com esperança. Como no belo poema musical de Chico Buarque, Pedro Pedreiro, estamos sempre esperando o melhor.

A esperança é positiva, e seu lado oposto é a ambição, que faz da felicidade um saqueio sobre a felicidade alheia. Sentimentos negativos constituem o impulso de algumas sociedades políticas. É da orientação dessas comunidades a expansão do poder sobre o espaço alheio e a coesão interna a qualquer custo. Isso ocorreu em toda a História e, nos últimos cem anos, com ferocidade crescente. Nas duas grandes guerras, movidas pela ambição expansionista, morreram dezenas de milhões de pessoas. Há aqueles que defendem as guerras, como fator de progresso, e apontam, entre outras vantagens da matança, o surgimento de remédios poderosos, como a penicilina, ou o desenvolvimento da tecnologia dos transportes aéreos.

O nacionalismo é uma ideologia positiva, quando cuida da afirmação de soberania de um povo sobre seu território, seus recursos naturais, sua cultura, sua história e suas decisões políticas. E é a mais perigosa das idéias, quando busca o domínio de outros povos. Encontrar o equilíbrio entre a auto-estima e o respeito aos outros, tanto na vida pessoal, quanto na vida das nações, é desafio permanente da razão. O mesmo desafio da razão é posto, quando se trata de identificar o momento do declínio, e administra-lo com honra. Uma das dificuldades, tanto para as pessoas, quanto para as nações, é aceitar a derrota e buscar supera-la mediante os recursos da inteligência. Os Estados Unidos, diante das sucessivas derrotas militares, entre elas, de forma constrangedora, no Sudeste Asiático, não conseguiram encontrar outro caminho para a manutenção de seu orgulho nacional que não seja o da violência e da ameaça. É certo que nenhum outro povo dispõe de armas capazes de destruir o mundo, como eles dispõem. Mas é ilusório imaginar que disponham de meios para dominar o mundo para sempre. Depois de fragmentada a União Soviética, a História, que rejeita as hegemonias definitivas, favoreceu o crescimento econômico e bélico da China, que, há cem anos era ainda uma nação humilhada pelo domínio colonial, quando proclamou sua república. Os norte-americanos terão que encontrar um modus-vivendi com os chineses, ou partir para a guerra total contra Pequim. Para isso, os norte-americanos terão que se entender com terceiros, e os terceiros são os países emergentes – entre os quais se encontram povos muçulmanos, muitos deles situados na Eurásia. A guerra total contra Pequim poderia ser a guerra total contra o mundo – e essa eles não poderão vencer. Seu único desfecho seria o aniquilamento do planeta, ou sua destruição de forma tão devastadora que o homem levaria séculos para reconstruir a civilização.

O grande líder norte-americano – esperava-se que fosse Obama – será aquele que convença seu povo a renunciar ao nacionalismo expansionista, a reduzir o poder bélico e a admitir a convivência, em igualdade de direitos, com as outras nações. Mas não será fácil renunciar a essa presumida supremacia, embora isso seja necessário à paz comum. É possível que, com o cansaço da invencibilidade do Super-Homem, os norte-americanos aceitem como modelo a modéstia de Lil Abner, que descobriu, no Vale dos Shmoos, a solidariedade que se contrapunha ao capitalismo americano. Seu criador, Al Capp, teve a coragem de, em plena caça às bruxas, criticar duramente o sistema.

OS PILARES DA MENTIRA

Em suas memórias, Known and Unknown, A Memoir, recém publicadas (Nova York, 2011), Donald Rumsfeld conta, nas páginas 208-209, o momento patético da Queda de Saigon. Ele era chefe de gabinete de Gerald Ford, que assumira o governo depois da renúncia de Nixon e devia administrar a humilhante derrota.

Segundo Rumsfeld, Kissinger assegurava, no Salão Oval, que a evacuação de Saigon já se completara, com a saída do Embaixador Graham Martin que - tal como os comandantes dos navios que naufragam - devia ser o último a escapar, quando se soube que não era verdade. O diplomata escapara antes que personalidades do governo títere e derrotado de Saigon invadissem a embaixada e esbaforidas, tentassem ocupar os últimos helicópteros, disputando espaço com os norte-americanos em fuga. Antes da reunião, o fotógrafo da Casa Branca, David Kennerly, veterano do Vietnã, saudara Ford com duas frases: “A boa notícia é que a guerra acabou. A má notícia é que a perdemos”.

Segundo o autor, alguém sugeriu que não se devia corrigir a falsa informação de Kissinger, e se ajustasse nova versão ao pronunciamento do Secretário de Estado. Rumsfeld diz ter sido contra, lembrando que tudo o que havia sido dito ao povo norte-americano não fora simplesmente a verdade. Esta guerra tem sido marcada por muitas mentiras e evasivas, e, assim, não há o direito de terminá-la com uma última mentira” – ele teria dito. Ford mandou o secretário de imprensa, Ron Nessen, dizer a verdade aos jornalistas.

No passado, a mentira podia durar muito, embora sempre tivesse pernas curtas. Em nosso tempo, os segredos podem ser guardados, como os da morte de Kennedy, mas a suspeita da mentira é tão danosa quanto a sua revelação. Os Estados Unidos sempre mentiram, a fim de tentar legitimar sua política agressiva. Todos os golpes de Estado, patrocinados pelos norte-americanos em países estrangeiros, ocorreram sob pretextos falsos. Não é necessário ir muito longe: a guerra contra o Afeganistão e o Iraque foi montada sobre os pilares das mentiras mais reles. Saddam Hussein podia ter sido cruel com os inimigos, mas o seu governo era o mais laico e menos obscurantista da região. Depois da guerra contra o Irã, ele abandonara todas as armas químicas. Não dispunha de recursos técnicos para a produção de bombas atômicas. Fotos foram adulteradas, indicando reatores clandestinos, forjaram-se depoimentos, e essas “provas” arranjadas levaram um homem tido como sério, o general Colin Powell, a mentir diante das Nações Unidas.

Poucas horas depois da morte de Bin Laden, começam a se confirmar suspeitas iniciais e perturbadoras. O saudita foi morto desarmado - e poderia ter sido capturado vivo. No avesso da lógica e da ética, Washington diz que não é preciso que o suspeito esteja armado para resistir à prisão. Osama “resistiu”, de mãos nuas, aos soldados protegidos por uniformes à prova de bala e dotados de armas potentes. O saudita tinha que ser morto, antes que pudesse dizer qualquer coisa ao mundo.

O bom senso internacional, passado o entusiasmo frenético diante da execução, começa a prevalecer, para qualificar o ato como agressão criminosa contra o povo do Paquistão e seu governo. Obama declara que agiu em defesa de seu país – e ponto. Foi como dissesse: “tenho o poder e dele faço o que quiser”.

Conta-se que, em Ialta, Churchill propôs que Hitler fosse executado tão logo reconhecido pelas tropas aliadas. Com ironia, Stalin se opôs: na União Soviética se respeitava o direito a um julgamento, conforme “o devido processo da lei”.

Como se sabe, Hitler se antecipou, matou-se com sua pistola, depois de determinar aos auxiliares que queimassem o cadáver – o que fizeram, em uma pira de molambos embebidos de gasolina.

A SEMENTE DO MEDO

Os Estados Unidos celebram a morte de Bin Laden, e um ex-embaixador brasileiro considerou-a “espetacular”.

É melhor ver a morte de qualquer homem, bom ou mau, como a morte de parte de nós mesmos. Como no belo poema em prosa de Donne, any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. A morte de qualquer homem me diminui, disse o poeta, porque sou parte da Humanidade, e, por isso, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você. Todos nós morremos um pouco, quando as Torres Gêmeas vieram abaixo, e todos nós morremos quase diariamente com os que tombam e tombaram, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão, na Costa do Marfim, no Realengo, em Eldorado dos Carajás, na Candelária e nas favelas brasileiras.

Os americanos comemoram nas ruas a morte de bin Laden, enquanto nos países muçulmanos outros oram pelo homem que consideram mártir. Como parte da Humanidade, talvez não nos conviesse a euforia pela execução sumária de bin Laden, nem a consternação por sua morte. Os atentados de Nova Iorque – de resto, nunca assumidos de forma cabal pelo saudita – foram crime brutal contra a Humanidade, bem como todos os atos de terrorismo, ao longo das duas últimas décadas. Mas a vingança exercida pelos comandos norte-americanos não pode ser aplaudida. Foi um ato de guerra, cometido contra a soberania do Paquistão, desde que ao governo de Islamabad não foi solicitada autorização prévia para a operação – segundo informou o diretor da CIA, Leon Panetta.

Isso nos leva a outra leitura de John Donne: não pergunte que povo foi atingido pela intervenção militar norte-americana. Todos nós fomos atingidos, não só por essa operação bélica e pela agressão à Líbia, mas também, no passado, pela intromissão, política, militar, econômica, das elites que controlam o governo de Washington, desde a guerra de anexação de territórios soberanos do México, movida pelo presidente Polk, em 1846. O México perdeu a metade de seu território, e os Estados Unidos ganharam mais de um quarto do que já ocupavam no norte do hemisfério. Essa vitória excitou a voracidade imperialista dos Estados Unidos, mais tarde explícita no fundamentalismo do “Destino Manifesto”.

Devemos ser cautelosos quando procuramos entender o momento atual. Comentaristas internacionais, sob o calor destas horas, tentam pensar nas conseqüências imediatas, e há os que discutem se o homem morto em Abbottab (o nome da cidade é homenagem ao general James Abbott, que serviu nas forças de ocupação da Índia no século 19) é mesmo bin Laden – que começou a sua vida de combatente como aliado dos norte-americanos contra os soviéticos, no Afeganistão dos anos 80. Tenha sido ele, ou não, importa pouco. Osama era apenas um símbolo, na clandestinidade imposta pelas circunstâncias. O que importa, e muito, é o que virá a ocorrer não nos próximos dias, que serão de pausa e perplexidade, mas nos próximos meses e anos.

O perigo maior, e desdenhado, é o de que o conflito atual, iniciado com a ocupação da Palestina por Israel, se transforme realmente em guerra declarada entre os países capitalistas ocidentais, que se identificam como cristãos, e os muçulmanos. Quem definiu a agressão como cruzada foi Bush, ao afirmar que Deus o havia convocado a matar Saddam. E conforme o livro clássico de Essad Bey, todos os movimentos no Oriente Médio, entre eles a ocupação judaica da Palestina, se fazem na busca da posse de seu petróleo. No passado, o saqueio se fazia em nome da “civilização” e, hoje, se faz também em nome da “modernidade”.

No fundo do regozijo, há sementes de medo. Esse medo é muito mais poderoso do que foi o saudita, de 54 anos e, segundo informações não desmentidas, a um tempo amigo e sócio dos Bush nos negócios de petróleo.

O DESTINO DO OCIDENTE

Há mais de cem anos alguns observadores vêm anunciando o declínio do Ocidente, essa idéia fundada na razão grega, que investigava os fenômenos físicos e as inquietações da alma, sob o exercício da liberdade. Mas a liberdade estava limitada pelas restrições sociais e econômicas. Ao admitir o instituto da escravidão, e discriminar as mulheres, os gregos a reduziam. É certo que muitos dos atenienses combatiam as ações práticas que embaçavam o ideal do humanismo. Isso não impediu que crimes brutais fossem cometidos, durante a Guerra do Peloponeso. A repressão aos habitantes de Melo, bem documentada por Tucidides, mostra que o Ocidente trazia, desde a origem, os sinais de suas contradições. Os argumentos dos enviados de Atenas à pequena ilha, a fim de subjugá-la pelo engodo, e, em seguida, pela ameaça, antes das armas, servem de modelo histórico ao comportamento das nações mais poderosas da História. Os mesmos atenienses que mataram todos os homens de Melo, e escravizaram suas mulheres e suas crianças, seriam derrotados, primeiro pelos macedônios e, em seguida pelos romanos. O arquipélago perdeu sua autonomia política e se transformou em colônia, que trocou sucessivamente de mãos, até se submeter a um monarca estrangeiro, já no século 19. A orgulhosa república, que trouxera à História o conceito de democracia, só se reencontraria no século 20, com a 2ª. Guerra Mundial.

Os valores do Ocidente, vindos da Grécia Antiga, que ocuparam, mal ou bem, toda a Europa, e encontraram seu momento mais alto nas revoluções intelectuais e políticas dos séculos 17 e 18, foram violados pela ocupação colonial. Em 1884, na Conferência de Berlim, com a demarcação da África em áreas de domínio, o saqueio se reafirmou como direito internacional dos brancos. Os mesmos argumentos – o de que algumas nações não conseguem governar-se por si mesmas, e violam os “direitos humanos”, tal como os concebem os mais bem armados – retornam, de vez em quando. Como ocorre agora, para justificar a guerra, que já se iniciou, contra os países árabes. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, que estão sendo arrasados, prepara-se a invasão da Síria. E Israel repete o discurso dos atenienses a Melo, ao reagir contra o entendimento entre as duas organizações da resistência palestina.

O medo assusta o governo submisso do Marrocos, que ocupa o território dos saarauis e atribui, em segunda versão, a explosão de cilindros de gás em Marrakech a uma ação “terrorista”. É mais fácil entender a tragédia de ontem como negligência dos proprietários, que não foram capazes de armazenar os cilindros de gás longe da chama dos fogões.

As revelações do Wikileaks sobre Guantánamo exibem as chagas repulsivas desse perempto Ocidente. E não faltam advertências, dos próprios norte-americanos, de que sua orgulhosa civilização está sendo estiolada pelo egoísmo e pela ganância. Por mais que pretendam dissimular, o medo, esse sócio do desatino, domina os governantes do norte. A revogação, na prática, do Tratado de Schengen, condena a Europa a desmantelar sua unidade continental. A Europa teme ser ocupada pelos “bárbaros”, da mesma forma que ocorreu com o espaço romano. Os governos europeus, sob a influência dos Estados Unidos, da França e da Inglaterra, renunciaram aos poucos princípios que restavam do humanismo do Ocidente. Hoje, quem conduz a história não são os intelectuais gregos que, com sua espantosa descoberta da lógica, entenderam que a sobrevivência do homem estava na busca do bem comum. São os banqueiros – em todo o mundo. Isso pode apressar o cumprimento da conhecida tese de Toynbee sobre a aliança entre o proletariado interno e o proletariado externo, em inevitável processo revolucionário contra os opressores.

FICÇÃO E REALIDADE

Victor Hugo, em Les Miserables, definiu a Revolução como “le retour du fictif au réel”. O escritor não examinou, então, as relações mais fundas entre a ficção e a realidade. A frase se insinuava diante das tarefas políticas, na esteira das revoluções, que eclodiam no correr do século 19, a partir da Revolução Francesa de 1789. Ficção e realidade, na política, como em tudo, são categorias que se mesclam. Os projetos políticos, de alguma forma, são ficções, que se realizam, ou não. Mas Hugo teve razão, se quis definir o real como a situação perfeita, aquela que as circunstâncias aceitam e limitam.

Estamos, em tempo revolucionário, como sempre estivemos na História, em si mesma inevitável processo de mudanças continuadas, em que a política pode ser vista como o provisório que dura. Dura mais, ou menos, de acordo com a situação concreta de espaço, modo e tempo.

No plano internacional, o bom senso indica que o poder dos Estados Unidos, baseado na força militar, é mais fictício do que real. A realidade é a falência do país, com dívida de 15 trilhões de dólares – mais do que o seu PIB do ano passado, de cerca de 14 trilhões. O orçamento para este ano de 2011, prevê gastos militares (despesas correntes mais as pensões dos veteranos) de quase um trilhão de dólares, em um total de 3.6 trilhões. Os Estados Unidos, com todo seu poderio bélico, não ganhou uma só guerra que empreendeu, desde a vitória coletiva contra o nazismo, em maio de 1945. Teve êxito em golpes liberticidas contra governos populares da América Latina. As derrotas no Vietnã e na Somália empalidecem qualquer triunfo – e seu desempenho no Oriente Médio não promete melhor sorte.

A reunião entre o Brasil, a Índia, a Rússia, a China e a África do Sul, ocorrida na Ásia, se aceitamos a tese de Hugo, é um dos movimentos para a vitória da realidade contra a ficção. Esses países, em conjunto, contam com mais da metade da população do mundo. O dinamismo de sua economia surpreende os observadores. Ainda que muito desse crescimento, nos dois gigantes asiáticos (Índia e China) se deva à pesada apropriação da mais-valia dos trabalhadores, submetidos a jornadas maiores de serviço e a salários reduzidos, os resultados obtidos os colocam na vanguarda do desenvolvimento nesta década que se inicia.

O mundo começa a não caber na camisa-de-força do condomínio que se estabeleceu com a vitória de maio de 1945 contra a Alemanha e o Japão. Esse condomínio pôde ser mantido mediante o poderio bélico e econômico dos Estados Unidos, o único país a ganhar tudo com o conflito, uma vez que a geografia o preservara de combates em seu próprio território.

É desse desconforto planetário que novos países emergem, a fim de dizer o que pensam e o que querem no cenário internacional. Eles dispõem de inegáveis trunfos, como os da extensão territorial, da população, dos recursos naturais, como minerais metálicos, disponibilidade de energia fóssil e renovável, mananciais de água, biodiversidade e acelerado desenvolvimento da ciência e da tecnologia – e a consciência da necessária soberania.

Estamos em plena revolução política e econômica, que promete reviravolta histórica, mas, como todas as grandes mudanças, carregada de perigos. Ela nos propõe desafios imensos, como os de universalizar a educação, dar novos paradigmas ao desenvolvimento da ciência, domar o progresso, de forma a não comprometer os recursos da natureza, e, ao mesmo tempo, distribuir e manter o bem-estar que a tecnologia nos trouxe. O entendimento entre os países emergentes será sempre provisório, como são os atos políticos, mas deve durar o bastante para redesenhar a geografia do poder no mundo.

AS IMAGENS DE ABDIJÃ

As fotografias, divulgadas pela imprensa internacional, são assustadoras. Sob a proteção das armas e soldados franceses, a horda de partidários do novo presidente da Costa do Marfim, Alassane Quattaro, cometeu atrocidades inenarráveis, no assalto final à residência do chefe de Estado vencido, Laurent Gbagbo.

Aceitemos todas as acusações feitas a Gbagbo e o argumento de seu adversário, que a “comunidade internacional” acolheu, de que as eleições foram corretas. Gbagbo lhes negava legitimidade e se recusava a deixar o poder. Mas se tratava de um assunto interno, que deveria ser resolvido sem interferência estrangeira. A França, no entanto, interveio em Abidjã, como se a Costa do Marfim fosse um mero departamento de seu território soberano. Não interveio para proteger a incolumidade do ex-presidente, como havia prometido, mas, sim, a violência dos assaltantes. A imagem da mulher de Gbagbo, que teve as tranças arrancadas pelos atacantes, a roupa esfarrapada pela brutalidade, os olhos vermelhos, a face humilhada, é outro documento destes tempos que põem à prova a alma dos homens, para lembrar a frase de Thomas Payne, criada durante as duas revoluções, a americana e a francesa, que marcaram os anos finais do século 18. Convém lembrar que, naqueles confrontos brutais, como foram os do “Terror” na França, não houve centros de tortura, como os Guantánamo e Abu Ghraib, nem massacres como os de My Lai, no Vietnã.

A França foi o primeiro país a declarar os direitos inalienáveis do homem e do cidadão. Mas a bela Declaration des droits, de 1789, não passa de referência histórica. A Grande França, que deu ao mundo alguns de seus mais belos momentos, é hoje caricatura do passado. Depois de De Gaulle ela ainda teve horas fortes com Mitterrand. Mas, desaparecida a grande geração dos resistentes ao nazismo, a mediocridade de Sarkozy e o atrevimento da velha direita, racista, que se revelou no famoso processo contra Alfred Dreyfus, na passagem do século 19 ao século 20, retorna.

O que a França tem feito na África, e principalmente agora, em Abidjã, é uma intervenção colonialista declarada, assim como é uma guerra de reconquista colonial a que está ocorrendo na Líbia. Os Estados Unidos, a França e a Inglaterra parecem empenhados em restaurar seus impérios ultramarinos – com os aplausos de uma Espanha apodrecida pela corrupção e embalada pela esperança de obter algumas vantagens marginais nessa nova divisão do mundo.

Ontem, mulheres muçulmanas foram multadas na França, pelo uso de seus trajes tradicionais. O governo de Paris alega que a medida visa a proteger os direitos femininos. É a torção de conceitos, de que o totalitarismo é mestre. No Iraque, as mulheres não eram obrigadas a esconder o corpo sob a burka, nem a face sob o nikab. Não obstante isso, como o problema era o petróleo, Saddam foi enforcado. Simone Gbagbo, de fé cristã, foi humilhada e agredida, sob os olhos, provavelmente divertidos, dos soldados franceses que garantiram o assalto à residência oficial. Sua roupa foi arrancada do corpo e rasgada. Seu marido, Laurent Gbagbo, que se acovardou nos últimos momentos, parecia um sonâmbulo. Nem mesmo o quarto em que as tropas francesas e as de Quattaro meteram o ex-presidente e sua mulher, foi resguardado. As fotos dos dois, sentados sobre o leito, sob o escarmento dos vencedores, correram ontem o mundo.

É um retrato da “grandeur” da França, sob Sarkozy. Em 1968, De Gaulle qualificou a rebelião estudantil de Paris como uma chienlit. Como ele definiria a triste palhaçada de Sarkozy em Abidjã?